A História e as histórias das Escolas de Samba

Por Cláudio Vieira

 
 

Capítulo 5

Festa no 4° centenário

Salgueiro improvisa abre-alas e levanta avenida pra vencer em 1965

          O título de 1963 deixou muitos salgueirenses de sapato alto. No ano seguinte, com o enredo Chico Rei e o samba de Geraldo Babão, Djalma Sabiá e Binha, tão bonito ou mais ainda do que Chica da Silva, a escola tijucana pisou no asfalto da Presidente Vargas com ares de bicampeã. O título parecia coisa certa.
          Mas, o que se viu na hora foi a falta da tradicional garra tijucana. Pelo menos dois terços da escola não abriam a boca, preocupados com as complicadas coreografias de Mercedes Batista. Mas, na hora de passar em frente à comissão julgadora, o fôlego foi redobrado para gritar o "já ganhou!", "já ganhou!". Nas arquibancadas de madeira, a resposta do público foi diferente: "Canta! Canta! Canta!".
          O jornalista Maurício Azedo resumiu numa frase o desempenho salgueirense. "Parecia um lento e imenso rancho". Ficou apenas a bela impressão visual, mas sem a chama do campeão. Mesmo assim, a vermelho e branco perdeu o carnaval para a Portela por apenas um ponto. A Águia somou 59 pontos e o Salgueiro 58.
          Apesar da tensão no pais por causa dos desdobramentos da Revolução de 1964, o carnaval de 1965 começou a ser preparado com antecedência. Cuidados especialíssimos foram tornados na organização da folia. Afinal, o Rio de Janeiro completaria 400 anos. Por sugestão das autoridades do turismo, as escolas de samba escolheram enredos relacionados ao Quarto Centenário.
          O sorteio indicou a seguinte ordem de desfile:

  1. Imperatriz Leopoldinense - Homenagem ao Brasil no IV Centendrio do Rio de Janeiro;
  2. Império da Tijuca - Apoteose ao Rio;
  3. Aprendizes de Lucas - Progresso e Tradições do Rio;
  4. Unidos da Capela - Rio de Ontem e de Hoje;
  5. Estação Primeira de Mangueira - Rio Através dos Séculos;
  6. Acadêmicos do Salgueiro - História do Carnaval Carioca Eneida;
  7. Portela - História e Tradição do Rio Quatrocentão, do Morro Cara de Cão A Praça Onze;
  8. Império Serrano - Os Cinco Bailes da História do Rio;
  9. União de Jacarepaguá - Carnaval, Alegria do Rio;
  10. Mocidade Independente de Padre Miguel - Parabéns pra você, Rio.

          Quando o carnavalesco Fernando Pamplona regressou da Europa, encontrou a escola ainda traumatizada com a perda do bicampeonato. Reintegrado à equipe de cenografia do Teatro Municipal, onde convivia com Arlindo Rodrigues quase diariamente, a conversa entre os dois não poderia ser outra sendo o enredo para o badalado carnaval do Quarto Centenário. Ao ler o livro História do carnaval carioca, de Eneida de Moraes, Pamplona encontrara o motivo ideal para o enredo. Contar a história da principal festa da cidade no dia de sua festa maior.
          Arlindo Rodrigues começou a desenhar os figurinos. Para criar as alegorias e adereços de mão, Pamplona convidou um rapazinho que o ajudara no ano anterior. Era o maranhense João Jorge Trinta, conhecido no Teatro como Joãosinho Trinta.
          O governador Carlos Lacerda estava preocupado em proporcionar à cidade um carnaval inesquecível. Para solucionar problema crônico, que todo ano gerava polêmica entre os sambistas, convocou os presidentes das escolas e anunciou que ele mesmo cuidaria da organização do corpo de julgadores. Trouxe noticias auspiciosas: além do adiantamento de 700 mil que a Secretaria de Turismo liberara, destinaria subvenção de quatro milhões de cruzeiros para cada uma das participantes.
          A Secretaria de Turismo introduziu várias novidades no desfile. Instalou degraus para acomodar quem não pudesse comprar ingresso; palanques no final da avenida para abrigar componentes de escolas que já tinham desfilado; palanque especial para fotógrafos e passarela sobre a área de desfile, onde ficariam os microfones das emissoras de rádio e as câmeras das televisões. O governador determinou também que haveria novo desfile no Sábado de Aleluia, com os vencedores de todas as categorias e modalidades.
          Em Salgueiro, Academia do Samba, o coração vermelho e branco de Haroldo Costa retrata com emoção o que aconteceu no dia do desfile. Naquele tempo de vacas magras, o barracão do Salgueiro ficava embaixo da ponte de São Cristóvão. A operação para levar os carros alegóricos até a concentração, na Candelária, começou no final da tarde de domingo. A escola tijucana seria a sexta a desfilar, imprensada entre Mangueira e Portela.
          Na hora H, furou o esquema de transporte prometido pelo presidente Osmar Valença ao carnavalesco Fernando Pamplona. Os reboques para levar as alegorias não apareceram. Só havia um caminhão, que fez diversas viagens carregando adereços de mão até um bonde, que seria um dos momentos marcantes do desfile. Havia também um calhambeque que participaria do corso e só pôde ser transportado graças a paciência de um motorista de táxi que concordou em rebocá-lo com uma corda. Joãosinho Trinta foi no automóvel, abraçando as flores que o enfeitavam, para não caírem pelo caminho.
          A cada minuto que passava, aumentava a agonia de Pamplona. Não sabia o que fazer com o gigantesco abre-alas, que transportaria o Rei Momo, representado por Jorge da Silva Casemiro, filho de Calça Larga. O carnavalesco tentou o auxilio de um caminhão da limpeza pública, um ônibus e veículos pesados que passavam pelo local. Nada. E nem sinal de Osmar Valença, que estava distante do problema.
          Desesperado, Pamplona apelou para os microfones das emissoras de rádio, pedindo que Osmar ou o diretor de carnaval Nelson de Andrade fossem urgentemente ao barracão, onde ainda estava o abre-alas. Esgotados todos os recursos e sem que os dirigentes dessem um telefonema sequer, Pamplona resolveu entrar em seu Citroën e partir para a Candelária. Ao arrancar, quebrou o freio-de-mão. Largou o carro no meio da rua e pegou uma carona.
          Quando chegou à concentração, o carnavalesco encontrou Osmar Valença dando entrevistas às emissoras de televisão, fazendo pose ao lado de passistas. Teve vontade de voar em seu pescoço. Mas a Mangueira já estava na metade do desfile. Não havia mais tempo para trazer o abre-alas. Arlindo Rodrigues tratou de formar a escola. Sem a principal alegoria, Fernando teve que apostar no impossível. Pôs o Rei Momo à frente e deu-lhe uma tabuleta, onde se lia uma frase, escrita com um pedaço de carvão, que viraria o slogan da escola: Nem melhor, nem pior, apenas uma escola diferente. Atrás dele, as irmãs Marinho - Mary, de Arlequim; Norma, de Pierrô; e Olívia, de Colombina - representavam o Carnaval de Ontem.
          Pamplona as chamou e contou o sufoco que seria: "Vocês vão abrir o desfile. E está arriscado levarem uma tremenda vaia. Topam?".
          Toparam. E já entraram na avenida levantando o público dos primeiros setores. Atrás delas, os rapazes da comissão-de-frente com as burrinhas criadas por Joãosinho Trinta. A escola encheu-se de moral e entrou avassaladora. Chovia confete e serpentina na Presidente Vargas. O público delirou com o samba de Geraldo Babão e Valdelino Rosa. Até os componentes das escolas adversárias se emocionaram. Os integrantes do júri, entre eles Milton Moraes e Maurício Schermann, aplaudiam de pé a passagem do Salgueiro. Foi exibição de campeã.
          A Portela, que desfilaria logo depois, percebeu isso. Natal tentou fazer uma das suas. Disse que a Águia não entraria na Passarela enquanto não tirassem toda a sujeira deixada pela vermelho e branco. Os bombeiros foram obrigados a lavar o asfalto. o objetivo, certamente, era esfriar o público e apagar da memória dos jurados o show que o Salgueiro acabara de dar. Não adiantou, o Salgueiro foi proclamado o legítimo campeão do Quarto Centenário, com 132 pontos. Dez a mais do que Portela e Império Serrano, empatadas em segundo lugar, com 122. Foi uma festa histórica na Tijuca.

 

 

Uma Águia nos bastidores

          Passados 32 carnavais, Mazinho, marido da porta-bandeira Wilma Nascimento e filho mais velho de Natal, decidiu contar o que aconteceu no desfile do Quarto Centenário, quando seu pai interrompeu o espetáculo para que os garis limpassem a pista para a Portela desfilar.
          "O negócio foi o seguinte. Como acontecia todo ano, a fantasia da Wilma ficava pronta em cima da hora. Enquanto ela não pregasse todas as pedrarias, todos os paetês, não saia de casa. Eu aqui, nervoso, gritando, vambora!, vambora!, e lá embaixo, na Avenida, o Velho mais nervoso ainda, sem saber o que estava acontecendo. E, com ele, tinha um negócio: sem a Wilma, a Portela não desfilava. Foi o que aconteceu. Como ela ainda não chegara, o Velho catimbou. Mandou varrerem a pista. Naquele tempo não havia garis de plantão na avenida. Os organizadores tiveram que ir lá na Tijuca pegar uma turma da Limpeza Urbana. Foi o tempo suficiente para a Wilma chegar".
          A ida de Wilma Nascimento para a Portela é uma das páginas mais bonitas da história do samba. Na década de 50, ela era porta-bandeira da Unido de Vaz Lobo e fazia um show na boate Night and Day, na Praça Mauá, onde mostrava sua arte com uma bandeira da Portela. Natal soube disso e ficou por conta. Queria saber quem tinha dado autorização para uma estranha se apresentar com o pavilhão da Águia. Resolveu ir à boate pegar a bandeira. Na marra.
          A ira de Natal era tão grande que foi para a boate de paletó de pijama mesmo. Sentou-se numa mesa de canto e ficou esperando a atrevida surgir no palco. Quando Wilma entrou em cena, Natal teve uma das maiores surpresas de sua vida. A moça dançava tão bem que o encantou. o que era raiva se transformou em admiração. Terminada a exibição, dirigiu-se aos camarins para cumprimentar a jovem Wilma e fazer-lhe um convite: "Você quer ser a porta-bandeira da Portela?".
          Wilma agradeceu. E justificou sua recusa: "Não posso. Sou porta-bandeira da União de Vaz Lobo".
          Natal não se conformou com a resposta. Seria o mesmo que um jogador do Canto do Rio recusar convite para jogar no Flamengo. Anos depois, o destino se encarregaria de reaproximá-los. Wilma namorava um policial que vivia falando na Portela e, um dia, convidou-a para ir à quadra da escola. Foram. Lá, o rapaz resolveu apresentar-lhe o pai, que estava do outro lado da quadra. A surpresa foi mútua: "Ué! Eu já conheço essa menina" disse Natal.
          Wilma: "E eu conheço o senhor não sei de onde".
          O portelense exclamou: "Já sei! Você a estava dançando com a nossa bandeira".
          "É isso mesmo", concordou Wilma, foi no show do Night and Day".
          Natal virou-se para o filho, Mazinho:
          "E ela é a sua namorada?"
          "É, pai".
          Natal não perdeu tempo: "Então, agora, você já pode ser a porta-bandeira da Portela".
          Wilma sorriu, dirigiu-se ao centro da quadra e abraçou o pavilhão azul e branco. Riscou o chão de poesia.
          Quando não havia confusão, Natal inventava. Principalmente se fosse para defender os interesses de sua escola, como aconteceu na apuração do desfile de 1960. A Portela estava disparada na frente, na contagem das notas dos.jurados, mas começou a perder a vantagem a partir da leitura dos pontos negativos, por atrasos e outras faltas. Quando percebeu que os inimigos estavam tramando, resolveu agir.
          A apuração era no saguão da Associação Brasileira de Imprensa. Os dirigentes das escolas ficavam sentados na frente, os outros diretores atrás de uma cerca. Calor infernal, cada nota lida era um bochincho. Natal sentia que a vitória escorria por entre os dedos. Levantou-se e foi caminhando lentamente, na direção do chefe do policiamento. Era um sujeito alto. e forte, que parecia distraído, alheio A algazarra dos sambistas. O locutor acabara de ler a subtração de mais um ponto da Águia.
          Natal gritou: "Isso é um roubo!", e com a Única mão que tinha deu uma bolacha no chefe do policiamento, que não tinha nada a ver com a história.
          O tempo fechou. Um monte de guardas municipais desabou em cima de Natal, o espancando. Outras brigas estouraram no saguão. O povo pulou a cerca, invadindo. Conflito generalizado. Mário Saladini, secretário de Turismo, tentando encontrar uma forma de serenar os ânimos, declarou que cinco escolas tinham terminado em primeiro lugar: Portela, Mangueira, Salgueiro, Unidos da Capela e Império Serrano.
          Mesmo arrebentado, Natal ainda teve forças para aproximar-se da mesa apuradora e dar uma sugestão: "Então proponho que o senhor declare as cinco campeãs".
          Todos concordaram e elogiaram a atitude do presidente portelense, que parecia humilde depois da surra. E cada um foi para o seu canto, festejar o campeonato conquistado no tapetão. Mas, ao contrário das outras quatro, Natal tinha um motivo para festejar de verdade: "Aí, pessoal, vamos para Madureira comemorar o tretracampeonato!". Só então as rivais lembraram-se de que a azul e branco vencera nos três últimos anos.