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Acima da Coroa de um
Rei, só um Deus
Introdução:
Uma escola de samba é muito
mais que uma agremiação recreativa. É como um grande coração que só
pulsa através do pulsar de centenas de outros corações. Aí, ela tem
vida, tem alma, tem ritmo para despontar na Avenida, majestosa, como um
ser vivo único, compacto, arrancando aplausos ou não, mas, acima de
tudo, personalíssima, vivendo, naquele momento, uma emoção intensa e
intransferível.
Mas
isso tudo não acontece num simples passe de mágica. Para a criação e
realização de um enredo são necessários meses de trabalho e entusiasmo
entremeados de muitas dificuldades e divergências. “Colocar um carnaval
na rua” é, acima de tudo, um ato de amor.
O
enredo é o tema central do desfile. A Escola de samba, na passarela,
considerada como um conjunto, interpretando e desenvolvendo o tema
proposto, é o próprio enredo.
Justificativa:
Num tempo muito distante,
recordamos a África das muitas lendas e mistérios e magia. África de um
tempo onde a natureza era uma rainha... Tão majestosa e tão sublime que
para ela “nasceram” muitos orixás: do trovão, dos rios, dos lagos, das
matas, dos ventos, etc.
Dessa
terra tão exuberante de crenças e magia, vieram os negros trazendo,
dentro de si, todas as raízes dessa cultura, tão bruscamente violada.
Embora
aqui vivendo com escravos, não podiam deixar de lado seus inatos
princípios religiosos e a prática desses cultos. Por outro lado, eram
obrigados a praticar a religião dos seus senhores.
Justamente
por isso, e assim, foram nascendo, aos poucos, os cultos
afro-brasileiros, onde, aparentemente, as rezas eram dirigidas aos
santos católicos, mas invocando os orixás africanos. Eram tantos os
santos católicos, quantas eram, logicamente, as identificações.
A
série de cultos seja candomblé, nação, umbanda, ou qualquer outro nome e
concepção que tenha assumido por esse Brasil a fora, tornou-se uma
prática religiosa de milhões de pessoas, de todas as classes sociais, de
todas as cores, credos políticos e até religiosos. Ele tem, em si, algo
mágico que envolve e satisfaz as impossibilidades das pessoas.
Acima
de todos os santos ou orixás, todos nós, no mais profundo de nossas
concepções, temos uma indisfarçável inclinação para acreditar num ente
supremo – um DEUS – qualquer que seja a sua natureza ou origem – que nos
transmita uma proteção maior e nos guie nos caminhos do bem e da paz.
Sinopse:
Na relação espiritual onde
se admite a comunicação entre os Homens, as divindades e a natureza,
buscamos a inspiração para o nosso carnaval.
“ACIMA
DA COROA DE UM REI, SÓ UM DEUS” é o enredo que o G. R. E. S. Acadêmicos
de santa Cruz apresenta para o carnaval de 1984. trata-se de um enredo
de cunho religiosos, seguindo as tradições afro-brasileiras. Com o nosso
canto e a nossa dança, apresentamos os orixás mais expressivos do
panteão iorubá, cujos cultos sobreviveram, através de diferentes
sincretismos, e chegaram até os nossos dias, particularmente, nas terras
do Rio de Janeiro.
Cada
dia de semana é consagrado a um orixá principal que “reina” em seus
domínios, com a proteção de todos os orixás, arma o seu terreiro na
Avenida, agradece e pede passagem a todos que iluminaram o seu caminho
com as bênçãos do Deus maior.
| Segunda-feira |
Exu e Omulu |
| Terça-feira |
Ogum |
| Quarta-feira |
Xangô e Iansã |
| Quinta-feira |
Oxossi |
| Sexta-feira |
Oxalá |
| Sábado |
Iemanjá e Oxum |
| Domingo |
Todos os orixás |
NOTA: Esta ordem
pode sofrer variações. Muitos orixás podem ser festejados,
simultaneamente, num só dia, como também um determinado orixá pode ser
cultuado num dia diferente da ordem acima, dependendo da concepção dos
diferentes rituais.
Exu: “Ô Laro Exu, axé!
Para seus filhos de fé”
Segunda-feira quem “reina”
é EXU. É uma poderosa entidade dotada de poderes maléficos especiais,
embora lhe prestem culto como aos outros orixás. É considerado,
alternadamente, como orixá ou como intermediário entre os orixás e os
homens.
Antes
mesmo de chegar ao Brasil, já havia sido assimilado ao demônio cristão
através dos missionários europeus na África. A ele se faziam sacrifícios
humanos em ocasiões especiais, traço que aqui restou na forma de matança
de animais votivos. É conhecido pelos nomes de Elegbará, Elegbá, Bará,
Aluvaia, Embarabô, Homem da rua, Homem das encruzilhadas, Jerá, Colobô,
Mojubá, Marombá, Senhor Leba, Tibiriri, Tiriri e outros...
Exu
é representado, em geral , por imagem de forma humana, com chifres,
armado com as sete sepadas correspondentes aos sete caminhos de imensos
domínios.
É
uma entidade maliciosa, interesseira, embora não necessariamente
maléfica, que reina em todas as encruzilhadas e lugares perigosos.
Exu
é sempre colocado fora do terreiro, numa pequena casa sempre fechada, a
fim de que não faça nenhum malefício. Pela mesma razão recebe, por
intermédio do despacho, as primeiras honras e sacrifícios de qualquer
celebração religiosa, sem o que ele poderia “atrapalhar tudo”. A ele são
oferecidas farofa, azeite de dendê, cachaça, pipoca. São-lhe
sacrificados o bode, o galo, o cão (raramente), preferentemente pretos.
Devido
aos seus extraordinários conhecimentos, Exu é consultado nos atos de
vida diária, diretamente pelos seus fiéis ou através de seus sacerdotes,
para fins divinatórios.
Omulu
Considerado o orixá da
varíola e das doenças em geral. Pode aparecer sob duas formas: como
Omulu (velho) e como Obaluaiê (moço e forte); respectivamente
assimilados a São Lázaro e São Roque, entre outros.
Segundo
a lenda, era aleijado e andava com a ajuda de uma bengala. Ao ser
expulso do convívio com os deuses, passou a habitar os caminhos desertos
e as matas, sempre longe das povoações.
É
visto como inseparável de Exu, sendo chamado “homem da bexiga” e
“habitante das encruzilhadas” em razão de ser também orixá malfazejo e
demoníaco. Esse caráter demoníaco, entretanto, vai desaparecendo.
Seu
dia consagrado é a segunda-feira junto com Exu. A Omulu são oferecidos
bode, galo, porco, pipocas, milho grelhado, acaçá, aberém, milho com
azeite de dendê.
Nas
antigas epidemias de varíola, o culto a Omulu atingiu proporções
impressionantes. Ainda hoje é um dos orixás de mais prestígio nos
diferentes terreiros do Brasil.
Ogum: “Ele é o senhor
da guerra, saravá a sua banda”
Divindade quase tão popular
quanto Xangô, no Candomblé e na Umbanda. É o orixá das lutas, das
guerras... Grande vencedor de demandas.
Como
divindade de guerra, Ogum carrega consigo os seus apetrechos bélicos de
ferro e ferramentas que lembram suas atividades de caça: espada, foice,
enxada (alguns já no esquecimento). É protetor dos ferreiros, guerreiros
e caçadores, e de todos que lidam com material de ferro.
Dizem
as lendas que foi ele quem primeiro ensinou aos homens a arte da caça.
Para se ter proteção, antes de qualquer expedição à guerra ou à caça, é
indispensável os sacrifícios a Ogum.
Suas
comidas sagradas são pipocas, feijoada, inhame assado, azeite. O bode, o
galo e o carneiro são os animais oferecidos em sacrifícios. A ele também
são oferecidos pássaros com o indispensável azeite de dendê.
Identifica-se
com diversos santos católicos; com Santo Antônio e São Sebastião na
Bahia e com São Jorge no Rio de Janeiro e outros estados.
Conta
a história que São Jorge era filho de família nobre e tradicional na
província da Capadócia, na Ásia Menor, subordinada ao Império Romano.
Recrutado para os exércitos imperiais, galgou muitos pastos, tornando-se
tribuno militar e comandante das Legiões Romanas do atual Oriente Médio,
norte da África e do Egito.
Insubordinando-se
contra a perseguição aos cristãos, abandonou o exército romano e passou
a pregar a palavra de Cristo. Foi preso, condenado ao suplício, sofrendo
torturas insuportáveis: queimado a ferros quentes e chumbo em fusão,
açoitado com lâminas de ferro e chumbo.
Sendo Ogum o orixá das guerras, do aço e do ferro, é fácil entender a
sua assimilação a São Jorge, ambos entidades do ferro e das lutas.
A
identificação se operou de tal forma, que na crença popular Ogum é São
Jorge e São Jorge é Ogum. Segundo os umbandistas, São Jorge é, foi e
sempre será Ogum, o grande orixá guerreiro; o orixá que com sua
flamejante espada, seu brilhante escudo e sua vitoriosa lança, está
sempre lutando contra o mal que possa atingir aos seus filhos e devotos.
A
insígnia de Ogum é uma espada com a qual dança fazendo mímicas
guerreiras.
É
festejado com muita devoção na terça-feira.
Xangô: “O seu trono é
na pedreira”
Deus dos raios e dos
trovões. Um dos mais poderosos e influentes orixás.
No
Brasil o seu culto é tão popular que o seu nome até tornou-se sinônimo
de candomblé ou macumba lá no nordeste.
Muitas
lendas sobrevivem sobre a sua história. Dizem que foi o quarto rei da
dinastia ioruba e que teria reinado sobre vasto império. Possuía um
grande exército e era assessorado por doze ministros (sacerdotes) que se
encarregaram de manter vivo o seu culto, depois que passou a ser orixá.
Xangô
é a divindade que zela pela justiça, recompensando quem mercê e punindo
os que estão errados.
Seu
fetiche é a pedra de raio e as insígnias são a lança e o oxé (machadinha
dupla). Entre seus alimentos sagrados estão o galo, o carneiro, o cágado
e um caruru especial.
Sincretiza-se
com São Jerônimo, santo católico protetor contra tempestades.
Xangô
vivia acompanhado das suas três mulheres – Oiã, Oxum e Obá – e dos seus
seguidores Oxumaré (Oxumarê) e Ory.
Dizem
as lendas que Oxumaré – divindade que representa o Arco-Íris – é uma
grande cobra que mora na terra e, de tempos em tempos, bebe água para
levar ao céu, até o ardente palácio nas nuvens, onde reside o seu
senhor.
Oxumaré
está identificado com São Bartolomeu.
Ory
é o ronco de trovão, mensageiro barulhento que Xangô envia a terra, de
vez em quando.
Quarta-feira
é o grande dia de Xangô.
Iansâ
Orixá feminino iorubano,
dos ventos e tempestades. Segundo alguns autores, mulher de Xangõ,
também conhecida por Oiã, tal como se chama na África.
Identificada
pelos afro-brasileiros como Santa Bárbara, tornou-se defensora contra os
raios e as tormentas. De temperamento forte, sensual e autoritário, é o
único orixá capaz de enfrentar os eguns, espíritos mortos.
Come
acarajé e abará. Sacrificam-lhe cobras e galinhas.
Quando
Iansã dança, agita os braços como que afastando de si as almas.
A
saudação de Iansã é “Epa hei!” e seu dia da semana é quarta-feira,
também dia de Xangô, o deus do trovão.
Oxóssi: “Oxóssi não é
feiticeiro, é caçador”
Grande orixá da caça e dos
caçadores. Na Nigéria é uma divindade secundária dos caçadores, mas no
Brasil adquiriu um prestígio gradual.
Oxóssi
habita as florestas dominadas por grandes variedades de animais e, nos
mistérios e segredos das matas, protege os caçadores contra o ataque das
feras.
É
representado sob forma humana, armado com arco e flecha. Traz, por
vezes, bichos de penas, pendurados no cinto. Veste-se ricamente com
manto nos ombros e pode aparecer usando um chapéu de couro, feltro ou
veludo.
Está
identificado na Bahia e em Recife como São Jorge e no Rio de Janeiro
como São Sebastião.
Os
animais sagrados de Oxossi são o galo, o carneiro ou o porco, o bode.
Seu alimento é o axoxô.
Seu
fetiche é um arco com flecha.
A
dança de Oxossi é a mímica de uma caçada, com o se o orixá estivesse
pronto para atirar na caça.
Oxóssi
é festejado na quinta-feira.
Oxalá: “Salve Oxalá,
deus supremo criador”
Se é sexta-feira, o sol
acorda mais cedo no infinito, deixando o céu ainda mais bonito para
Oxalá passar...
É
o Oxalá da criação, divindade suprema da cultura iorubá, identificado
com o Deus pai e Deus filho cristão.
Dizem
os mitos que Obatalá foi criado por Olorum – mestre do céu e senhor do
infinito. Depois, Olorum foi sendo esquecido e se perdendo nos mistérios
do infinito, deixando em seu lugar Obatalá (ou Orixalá), também chamado
Oxalá, no Brasil.
Obatalá
(Oxalá significa “o rei da brancura e da pureza” ou ainda o “rei que é
grande”.
É
representado por meio de conchas ou cawries e limo verde dentro de um
círculo de chumbo. Este fetiche simbolizaria a riqueza e a fecundidade.
Seus
enfeites são todos brancos: colares, vestes, etc. Gosta de comida branca
como aiaçá, ebó de milho branco, inhame. A ele, sacrificam-se o pombo e
a cabra, também brancos.
Do
panteão dos Orixás iorubas, muita coisa foi sendo esquecida pelos negros
no Brasil.
As
divindades que aqui são cultuadas tem poderes, prestígio, e, cada uma
delas “reina” especialmente num dia da semana, mas Oxalá, como Deus
supremo e Criador, está acima desses outros orixás.
Iemanjá: “Trago
oferendas para a Rainha do Mar”
É a mãe d’água de origem
iorubá. Na África, é a deusa do rio Ogum, mas aqui seu culto
hidrolátrico se estendeu.
Aculturada
com as iaras ameríndias e com as sereias européias que lhe estenderam os
domínios até o mar e lhe emprestaram os longos cabelos, a cauda
pisciforme, os cantos irresistíveis, etc.
Já
não se trata da deusa africana nagô, mas de outra divindade das águas
brasileiras, fruto do sincretismo de diferentes correntes culturais.
Iemanjá
é a água... Iemanjá é o próprio mar divinizado, que protege e defende
tanto quanto apaixona e castiga.
Quando
dança, faz com os braços movimentos interpretativos das águas. Ela pode
ser a Sereia do mar, a Rainha do mar, Princesa do mar, Dona Janaína, Don
Maria, Inaê, etc...
Sempre
reinando sobre os mistérios das águas do mar.
Seu
fetiche é uma pedra marinha, embora os ídolos e os símbolos sejam
diversos. É simbolizada modernamente por conchas marinhas. Cultuada aos
sábados, juntamente com Oxum, outra entidade das águas, por vezes com
ela confundida.
Sincretizada
com a Virgem Maria, ela pode ser Nossa Senhora da Glória, da Conceição,
do Rosário, do Carmo, da Piedade, das Candeias, etc.
As
insígnias de Iemanjá são a espada e o abebé (leque circular) branco.
Seus adornos são pulseiras de alumínio e contas de cristal.
Enquanto
na África não lhe rendem cultos em público, é exatamente o culto
externo, feito no mar e nas lagoas, que caracteriza sua devoção no
Brasil.
Iemanjá
é homenageada com muitas festas públicas, em diferentes datas. No Rio de
Janeiro, sua grande festa se realiza no dia 31 de dezembro. É um grande
acontecimento para o qual acorrem pessoas de todas as classes e credos.
Os
devotos organizam cerimônias na orla marítima, com cantos, danças e
oferendas que são atiradas nas águas, ou depositadas em pequenas
embarcações, ou levadas em saveiros, barcos e canoa até quase alto mar
onde Iemanjá espera esplendorosa. Esses presentes, em geral são pentes,
caixas de pó-de-arroz, espelhos, vidros de perfume, laços de fitas,
sabonetes e, especialmente flores. Se o presente afundar ou for
devolvido à praia, não será sido aceito.
Seu
culto é o maior e mais espetacular de quantos existam na tradição
afro-brasileira.
Oxum
Deusa das fontes e cursos
d’água. Conta a lenda que Oxum é filha de Iemanjá, um dos quinze orixás
iorubas saídos do ventre violado.
Oxum
é uma das esposas de Xangõ, juntamente com Oiá e Obá. Por vezes, é
confundida com Iemanjá, ambas conhecidas na Bahia como Oxum-Apará e
Oloxum.
Está
identificada, no Brasil, com diversas santas católicas: Nossa Senhora da
Conceição, das Candeias, da Aparecida, do Rosário, do Carmo, etc.
Seu
fetiche é uma pedra marinha ou seixos de rio.
Os
símbolos de Oxum são o leque e as pulseiras de latão.
Sendo
uma entidade das águas, o assento fica quase sempre perto de uma fonte.
Oxum
dança com o abebé (leque circular na mão, fazendo mímicas de quem se
banha no rio, penteia os cabelos, alisa a face, põe colares e olha-se no
espelho, sacudindo os braceletes que lhe enfeitam os braços.
José Lima Galvão |