Gregório de Matos nasceu na cidade de Salvador,
Bahia, em decantado berço de ouro. Filho de fidalgo português,
senhor do engenho na Patatiba, no Recôncavo, que moía com muitos
escravos. Estudou Humanidades com os Jesuítas. Desde moço foi poeta.
“Permití, minha formosa, que esta prosa envolta em verso de um poeta tão perverso se consagre a vosso pé, pois rendido à vossa fé sou já poeta converso.”
Jovem, foi para Coimbra e teve o privilégio de ser um dos primeiros
Doutores Brasileiros da velha Universidade.
“Mancebo sem dinheiro, bom barreta,
Medíocre o vestido, bom sapato, Meias velhas, calção de esfola-gato, cabelo penteado, bom topete.
Presumir de dançar, cantar falsete, Jogo de fidalguia, bom barato, Tirar falsídia ao moço do seu trato, Furtar a carne à ana, que promete.
A putinha aldeã achada em feira, eterno murmurar de alheias famas, soneto infame, sátira elegante.
Cartinhas de trocado para a feira, Comer boi, ser Queixote com as Damas, pouco estudo, isto é ser estudante.”
Ali, aprendeu a Lei e conheceu os versos de Camões, de outros poetas
antigos e dos italianos influentes à época. Bacharel, viveu vinte
anos em Lisboa, onde casou e foi juiz. Mas a sua sátira que apenas
brotava, feria quem estava por perto do poder. Ao recusar a nomeação
de inquisidor dos Crimes do Governador do Rio de janeiro, perde o
favor da corte e é forçado a voltar à Pátria.
Na Bahia, Gregório de Matos viveu cerca de quinze anos. O tempo da
maturidade, no qual chega às últimas conseqüências o fabulosos
processo de libertação do poeta e do seu verso. Sua poesia sacra,
lírica, burlesca, erótica e satírica, está repleta das angústias e
experiências do homem barroso nos trópicos e profundamente enraizada
na sua circunstância baiana, brasileira, tanto os versos satíricos
quantos os eróticos, valem como verdadeiras crônicas da vida
colonial do Brasil do século XVII, dos padrões de comportamento
social, político e moral.
“A cada canto de um grande conselheiro,
Que nos quer governar cabana, e vinha Não sabem governar sua cozinha, E podem governar o mundo inteiro.
Em cada porta um freqüentado olheiro, Que a vida do vizinho, e da vizinha Pesquisa, escuta, espreita e esquadrinha, Para levar à praça, e ao terreiro.
Muitos mulatos desavergonhados, Trazidos pelos pés os homens nobres Posta nas palmas toda a picardia.
Estupendas usuras nos mercados, Todos, os que não furtam, muitos pobres, E eis aqui a cidade da Bahia.”
Caído em desgraça pelo Governo da Colônia e pela Igreja, a quem
criticava, Gregório de Matos passa a viver da Advocacia. Entra para
o Partido Liberal e começa a fazer oposição ao poder colonial. Seus
amigos são intelectuais e políticos de espírito nativista, os
senhores de engenho espoliados pelo comércio português e pelos
agiotas e seu verso se enche da implacável condenação “ao roubo, à
justiça e à tirania”. Viaja por toda a Bahia, conversa, agita, faz
política, livra seu verso que ganha linguagem própria, com palavras
que negros, índios e brancos cunharam na Bahia.
A imprensa é rigorosamente proibida, mas seus versos correm às ruas
da cidade apertada entre o Mosteiro de São Bento e o Convento do
Carmo. São decorados, repetidos, modificados e copiados, em cadernos
por toda as ladeiras que ligam as tavernas e as igrejas. Entre a
força e o pelourinho e os palácios do Governador e do Bispo, explode
a sátira gregoriana, em nome da moral sancionada e descumprida. Sua
poesia é festa para todos os marginalizados do rígido sistema e seus
versos se voltam cada vez mais para os “pequenos” numa linguagem
corriqueira. Faz-se crônicas daquela gente que seria Brasil e sua
gente o reconhece e proclama.
“O demo a viver se exponha, Por mais que a fama exalta, Numa cidade onde exalta Verdade, honra e vergonha.”
O poder também o reconhece e tenta seu trunfo maior para remílo:
oferece-lhe a batina em troca da língua maldizente. Gregório de
matos recusa o negócio já sem medo da pobreza a que estava
condenado.
Fecha o escritório de advocacia e deixa-se observar pelo mundo
baiano, sem amarras e sem preconceito. Bebe e ama, sem ter
dinheiro-“Amo por amar que é liberdade”. Come quando é convidado,
dorme onde os amigos o abrigam. De uma cabeça faz viola e canta sua
poesia nas varandas dos engenhos.
“Cansado de vos pregar
cultíssimas profecias, quero das culteranias hoje o hábito enforcar de que serve arrebentar, por quem de mim não tem mágoa?
Verdade direi como água, porque todos entendais
os latinos, e os boçais a musa praguejadora. Entendeis-me agora?”
Até então as autoridades limitavam-se a
demiti-lo de cargos e
funções, a negar-lhe favores, a obrigá-lo à pobreza. De vez em
quando, breves prisões e ameaças de agressões, mas o poeta popular
não se cala contra eles.
“Quem me quer o Brasil, que me persegue? ........................................
“Neste mundo é mais rico o que mais rapa”. ..........................................
“Senhora Dona Bahia, nobre e opulenta cidade, madrasta dos naturais, e dos estrangeiros madre”.
As autoridades civis, militares e
eclesiásticas, os senhores do
comércio e agora até mesmo os senhores de engenhos, não podem
perdoar a esse branco que se diz “escravo e canalha” de pretas e
mulatas, que mistura-se à ralé e aos elementos da reação
anticolonial. Gregório é preso e degradado: vai preso num navio que
leva cavalos para Benguela e que voltará de Angola com escravos.
“Adeus Pobo, adeus Bahia Digo, Canalha infernal, E não falo na Nobreza Tábula em que se não dá, Pícaros dão picardias, E inda lhes fica que dar. E tu, cidade, és tão vil Que o que em ti quiser campar, (aproveitar) Não tem mais do que meter-se A magno, e campara.” (a malandro e aproveitará)
Em Angola ajuda o Governador a sufocar uma rebelião e como
recompensa permitem que volte do degredo. Impedido de voltar à Bahia
é recambiado ao recife. Gregório continua a sua luta contra a
exploração colonial, contra a injustiça da lei corrupta, contra a
moral hipócrita e o preconceito.
Como Zumbi, o líder quilombola dos Palmares, também resiste e clama
por liberdade. Seis dias depois da morte de Zumbi, no ano de 1695,
Gregório de Matos entrega a alma a Deus.
“A Vós correndo vou, braços sagrados, Nessa Cruz sacrossanta descobertos; Que para receber-me estais abertos, E por não castigar-me estais cravados”.
Morre Gregório de Matos Guerra que viveu aqui na terra, entre o céu
e o inferno, o pecado e a penitência, o mal e o bem, o burlesco e o
sagrado, de bem falar e maldizer.
Morre Gregório de Matos. O Boca do inferno, a primeira grande voz
poética tipicamente brasileira.
“Eu sou aquele que os passados anos Cantei na minha lira maldizente Torpezas do Brasil, vícios e enganos”.
Mas a luta contra a opressão, as injustiças e preconceitos, é certo,
não começou nem terminou com a voz livre d’O Boca do inferno.
Aprendida a lição de liberdade contida em sua poesia, outros mais ou
menos malditos – seguiram seus passos. É o caso de Manoel Bequimão,
de Tiradentes e dos poetas da Inconfidência. Dos heróis da
Conjuração dos Alfaiates, de Frei Caneca, dos balaios, Cabanos e
Sabinos, de José Alencar, de Martins Pena, Mário de Andrade, de José
do patrocínio, de Antônio Conselheiro e tantos ouros, que formariam,
ao lado de Gregório de Matos uma infernal galeria de contestação.
São vozes da liberdade.
Assim, para quem deixou uma herança tão intensamente rica, sua morte
deve ser encarada como vida e, sendo certo, que a ânsia pela
liberdade não é atributo de período histórico, mas do próprio homem,
outros “Bocas do inferno” fazem da Lira Maldizente um canto em favor
dos oprimidos.
E como diz James Amado: “Do alto de seu roko, a Sagrada Gameleira em
Opô Afonjá, Gregório de Matos, pequeno Orixá Baiano, observa
sorridente suas próprias aventuras de Exu cavalgando, sua gente na
terra, cavalos padecentes”.
Contempla sua cidade da Bahia e deve sair atrás do Trio Elétrico,
junto com os outros Bocas do inferno, a quem, agradece a obrigação
recebida.
Paulo César Cardoso
(autor do enredo)
- Comissão de frente – Representada por sete “DIABAS” e sete “ANJOS”
procuram retratar a vida do poeta Gregório de Matos. Ninguém como
ele viveu aqui na terra entre o Céu e o Inferno.
- ABRE-ALAS – É o casório da Bahia do século XVII com o monstro de
sete cabeças representando os setes vícios da cidade em que viveu o
poeta. Mos seus versos a Fome e a Miséria, a Tirania, a injustiça, a
Avareza, a Hipocrisia, a Corrupção e o Preconceito campeavam na
Bahia de então. As figuras vivas representam os vícios e os
ladrinhos da cidade de Salvador.
Setor 1 – Bahia dos
colonizadores
Setor 2 – Bahia Gregoriana
- ALA – Os Senhores do engenho
- ALA – Damas da Noite – Como dizia o poeta, a cidade da Bahia, é
feita de dois efes. Furtar e ...
- ALA – Mucamas e cortadores de cana
- ALA – Vendedores de Camarão
- ALA – Marinheiros do Cais e Vendedores de Peixe]
- ALA – Índias – “Civilizadas” e Lavradores dos campos do interior da
Bahia
- ALA – CRIANÇAS – Negrinhos de Ganho
- 2ª Alegoria – A Igreja do Carmo – No átrio os vendedores miseráveis.
No interior os sermões feitos para parede.
Setor 3 – Angola: O Exílio do Poeta
- ALA - Africanos
- ALA - Africanos
- ALA - Africanos
- ALA - Africanos
- ALA - Africanos
- ALA – Africanos
Setor 4 – Recife vê o poeta morrer
- ALA – Réquiem ao poeta popular
- ALA – O maracatu do Poeta Rei
- ALA – “Dançando Afro” –
Maracatu
- ALA – Baianas
- 3ª Alegoria – O maracatu do Poeta Morto
Setor 5 – Vozes de contestação
- ALA – Arautos da Liberdade
- ALA – Os mártires – Nesta ala representamos todos os que morreram em
defesa dos oprimidos
- ALA – BATERIA – Os Gregórios de Matos
- 4ª Alegoria – Ecos da
Liberdade – Pantheon de alguns vultos famosos
(Zumbi – Frei Caneca – Tiradentes – Castro Alves José do patrocínio
e Mário de Andrade) cujas vozes contestaram sempre a opressão dos
poderosos.
Setor 6 – A Poesia de Gregório de Matos
- ALA – as Negras e Mulatas da Bahia
- ALA – O Amor do poeta e sua gente
- ALA – A irreverência do poeta (Ala coreografada)
- 5ª Alegoria – O “Topos Carpe-Diem”. O Poeta vivia intensamente,
vivia o hoje, o já. Sabia que a vida e as coisas são efêmeras. Nisto
foi precursor na poesia brasileira. O exemplo mais recente é o filme
“SOCIEDADE DOS POETAS MORTOS”.
Setor 7 – A GAHETEIRA (árvores sagradas do Candomblé)
- ALA – as pombas giras
- ALA – Zé Pelintra (Velha Guarda)
- ALA – O povo de rua (Malandrinhos)
- ALA – segunda ala de baianas
- 6ª Alegoria – A Gaheteira e o despacho para Gregório – Pequeno Orixá
Baiano
- ALA – Os Bocas do Inferno de hoje
- ALA – Outras Bocas do Inferno
- 7ª Alegoria – Atrás do TRIO ELÉTRICO
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