Araxá lugar alto
onde primeiro se avista o sol
Há
milhares de anos, o caminho até as fontes de águas minerais do Barrero
foi percorrida por mamíferos pré-históricos. Esses utilizaram o lugar,
provavelmente, para se alimentarem e beberem água. Depois de mortos,
alguns deles tiveram os corpos soterrados e misturado à lama. Isso contribuiu
para a conservação de seus ossos até a sua descoberta e retirada do
solo em 1939.
Muito depois dessas espécies terem usufruído das águas do Barrero, outras
fizeram o mesmo. Embora não haja comprovação científica de que a população
indígena que ali viveu tenha se beneficiado dessa riqueza até o século
XVIII, é certo que, logo depois disso, estas terras foram novamente
ocupadas e seus recursos minerais explorados.
Atravessava o Brasil um período de lutas para fazer da colônia um país,
e há anos, procurava acentuadamente conhecer a extensão territorial
de suas conquistas.
Em toda vasta dimensão dos limites entre regiões, nenhuma podia proporcionar
uma descrição mais ativa da cruel ferocidade da luta selvagem desses
tempos, do que a região dos Arachás, destemidos índios que ali habitavam,
além dos audazes negros do Quilombo do Ambrósio, que com bravura, defendiam
a sua nação.
Foi nesse cenário de lutas e efusão de sangue que ocorreram os fatos.
Um exército comandado por Bartolomeu Bueno do Prado, em 1757, exterminou
o Quilombo do Ambrósio. Em 1766, Inácio Corrêa Pamplona dizimou a tribo
dos Arachás, dando surgimento à lenda da Catuíra, que tendo seu amor
disputado por dois guerreiros, o perdedor facilitou a entrada dos brancos
para a destruição de sua própria raça.
Mas, o que está destinado acontece. As terras se tomaram livres para
o nascimento do povoado de São Domingos do Arachá. Uma civilização foi
criada com a vinda dos criadores de gado para a região, onde se sentiram
compensados pelas terras férteis, pela abundância de suas águas e a
boa finalidade delas.
Nesse tempo foi permitida a participação de estrangeiros na exploração
mineral, medida decorrente da vinda da família real portuguesa que;
em 1808, passou a viver no Brasil.
Já os grandes criadores haviam se enriquecido com o benefício da radioatividade
das águas para a criação do gado, quando o governo de Goiás insiste
no domínio do território, aliando-se á prioridade de seus exploradores,
e dele se apossando por 50 anos.
Em 1811, foi criado o julgado de São Domingos do Arachá; escrito desde
esse momento com a nova grafia “X”, tendo este julgado se incorporado
à Comarca de Santa Cruz de Goiás.
A vinda do Ouvidor Joaquim Inácio Silveira da Mota à São Domingos do
Araxá, em 1815, para fazer a correção judicial, foi considerada pelos
historiadores, como marco da libertação de Minas Gerais. As modificações
que se operaram não foram provocadas apenas por uma articulação política,
mas por uma menina de quinze anos, que movimentava as vielas e os becos
do lugarejo.
Ana Jacintha de São José era seu nome. Todos à conheciam como “BEIJA”.
Beija foi apenas uma das mulheres, que desafiou no seu tempo uma sociedade
patriarcal que a condenou. Assim como Josefa Pereira, Josefa Carneiro
de Mendonça e a escrava Filomena, assumiu o direito de procurar a felicidade
numa época em que a mulher só se oferecia em condição de escrava disfarçada.
Seguindo a tendência de se destacar na história nacional, Arachá foi
palco de vários acontecimentos, ora políticos, ora sociais.
É neste clima de alto-astral que temos a liberdade de transformar Araxá
num imenso banquete. Dando ênfase à sua arte culinária, que influenciou
no reconhecimento nacional e internacional da cozinha mineira, onde
destacamos as doceiras, cozinheiras, cozinheiros e mucamas, que encantam
com suas receitas de sabores e matizes variados, transformando Araxá
em uma festa permanente.
A chegada da Família Real e a descoberta das propriedades das águas,
a evolução dos seus estudos e a sua utilização no tratamento de algumas
doenças, provocam a expansão do turismo, instituindo o que chamaríamos
de um novo ciclo econômico, que está ligado intimamente ao mito de Dona
Beija. Para atender à este crescimento turístico, foi criado em meados
do século XX um arrojado projeto arquitetônico: O complexo turístico
que compreende as termas, edifícios destinados à banhos quentes ou frios,
muito usados na Antigüidade por gregos e romanos, e o Grand Hotel, que
por longo tempo sediou congressos, feiras internacionais e encontros
no mundo político nacional. O cassino movimentou os seus dois primeiros
anos de funcionamento, revestiu de luxo e glória aquele tempo. Seus
imponentes salões abrigaram fantásticos bailes carnavalescos e festividades
da cidade em geral. O Grand Hotel atrai as atenções pela sua magnificência.
Sem dúvida, representa grande marco da engenharia brasileira. Apresenta
nos seus traços arquitetônicos soluções sóbrias, elegantes, equilibradas
na simetria e, principalmente, na qualidade construtiva dos detalhes
e dos acabamentos. É a história da própria história, a glória da própria
glória, terra da água encantada, da primeira alvorada, da festa esperada
do generoso solo mineiro onde o sol nasce primeiro com o mais intenso
fugor.